Bullying – dor, solidão e medo

O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) pode ser acionado, mas, na prática, é pouco eficaz. “Os juízes das varas da Infância e Juventude muitas vezes não dão prioridade aos casos de bullying por julgá-los de menor gravidade”, diz o advogado Marcel Leonardi, professor da Fundação Getulio Vargas.

Revista Veja - 20 de abril de 2011

Autores: Renata Betti e Roberta de Abreu Lima, com reportagem de Alexandre Salvador, Igor Paulin, Helena Borges, Malu Gaspar e Vinicius Segalla
Fonte: Revista Veja, edição de 20 de abril de 2011

BULLYING

Especial – O drama das vítimas de humilhação nas escolas

Entre outras singularidades trágicas, o massacre de Realengo escancarou um fenômeno mais geral que atormenta milhões de estudantes em todo o país. Para as vítimas de agressões físicas e xingamentos, as marcas podem se perpetuar por toda a vida

São muitas, irrepetíveis, inexplicáveis, inevitáveis e sombrias as motivações do covarde assassino de crianças de Realengo, no Rio de Janeiro. Seu funesto testamento, feito em cartas e vídeos, cita, porém, um fenômeno que, se não produz automaticamente assassinos e desajustados sociais, atormenta diariamente milhões de crianças – o bullying, termo em inglês popularizado no Brasil. Sob seu amplo significado abriga-se todo tipo de tortura física e psicológica de que são vítimas as crianças que têm como algozes seus próprios colegas. Numa série de vídeos que Wellington Menezes de Oliveira gravou enquanto planejava o ataque, ele disse que ia matar para expiar as humilhações que sofrera no colégio. Evidentemente, por piores que tenham sido as agressões impingidas a ele, elas não justificam nem explicam todo o bárbaro episódio, produto de uma mente perversa e doentia. O caso reforça, porém, a ideia de que o bullying não pode continuar a ser negligenciado pelas escolas brasileiras nem pelos pais. Em um lugar que deve funcionar como extensão da própria casa, alguns estudantes se tornam alvo preferencial de xingamentos, ameaças e agressões físicas. Não é uma violência qualquer. O bullying é executado pelos pares, ou seja, pelo grupo ao qual a criança ou o adolescente precisa pertencer e no qual deve se sentir um igual como parte do processo saudável de amadurecimento psicológico e de preparo para a vida adulta. Sentir-se preterido nesse momento crucial da vida é um castigo cujas marcas podem ser mitigadas, mas nunca serão esquecidas. Por essa razão – e, principalmente, por ser um problema que pode ser prevenido, atenuado e até evitado pelas escolas – o bullying merece uma atenção especial de diretores, professores, familiares e de toda a comunidade escolar.

Sim, o fenômeno tem raízes imemoriais. Desde que o mundo é mundo, os seres humanos diferentes são alvo de troças e covardias: Mas, no atual estágio da civilização, tornam-se inaceitáveis as desculpas clássicas para não fazer nada contra a tortura psicológica e física de crianças e adolescentes que se destacam da média por algum defeito – gagueira, uso de óculos com lentes “fundo de garrafa”, dificuldade de locomoção, obesidade mórbida ou magreza excessiva – ou até pelo desempenho acadêmico estelar, que também pode servir para atiçar a inveja e a vingança dos medíocres. Um levantamento de abrangência nacional mostra claramente que o bullying não se limita a casos isolados. De acordo com dados compilados pela ONG Plan, presente em 66 países, um de cada três estudantes brasileiros de ensino fundamental revela ser ou ter sido alvo de “maus-tratos” por parte de colegas dentro da escola. Pela persistência das agressões, um de cada dez casos configura o bullying. Para desespero das vítimas, muito frequentemente as ameaças e intimidações são alimentadas via internet, tornando-as um tormento sem fim. Os números são expressivos – e ainda estão subestimados. Coordenadora do estudo, a educadora Cleo Fante chama atenção para um segundo aspecto: “O problema é maior do que as estatísticas fazem supor, já que a maioria das vítimas tem medo e vergonha de se identificar”.

Parte do grupo que ilustra as páginas desta reportagem preferiu não mostrar o rosto nem dar o nome. Alguns são ainda hoje vítimas de bullying. Para a maioria, a experiência detonou a autoestima e a capacidade de travar relacionamentos saudáveis. Algo que eles foram recuperando à custa de ajuda psicológica – e tempo. As más lembranças, no entanto, sempre afloram, em menor ou maior grau. “Até hoje, quando escuto um grupo dando risada do meu lado, meu coração dispara e me lembro do horror que eram os tempos de colégio”, conta o administrador de empresas C.J., 28 anos, que por quase uma década foi alvo de humilhações em três escolas particulares numa cidade do litoral paulista. Era só mudar de colégio para esbarrar com alguém que já conhecia sua fama de “certinho da turma”, e o bullying recomeçava. Ele reconhece, com um discurso típico dos que já enfrentaram a situação: “Acho que nunca vou estar 100% curado”.

Conflitos entre crianças e adolescentes não apenas são comuns como esperados. Trata-se de uma fase de inseguranças, em que a identidade está sendo formada e a necessidade de autoafirmação se impõe. É justamente nesse ambiente que o bullying prolifera. “Humilhar os outros era uma forma de ganhar poder no grupo”, diz o publicitário T.S., 25 anos, que conta ter passado todo o período como estudante de colégios particulares de São Paulo no papel de agressor. No lado das vítimas, há um grupo heterogêneo, que sempre destoa da maioria por alguma peculiaridade. Figuram entre os alvos preferenciais alunos novatos, os melhores da turma, os excessivamente tímidos e também aqueles cujos traços físicos fogem do padrão. Nathan Ferreira de Almeida, 13 anos, chamou atenção por ser calado, franzino e ter um excelente boletim. Chegava à escola e ouvia “”frouxo””, “chorão”. Dois anos atrás, depois de uma surra da qual ele saiu repleto de hematomas, os pais decidiram mudar o menino de escola. Agora ele está bem. “Não quero que o filho de ninguém sofra o mesmo que o meu”, diz a mãe, Cristiane Almeida, 33 anos, hoje à frente de uma ONG anti-bullying.

Cerca de 80% das escolas brasileiras não punem valentões agressores. “Elas ainda não entenderam sua responsabilidade na repressão ao bullying”, diz a consultora pedagógica Valeria Rezende da Silva. A experiência internacional sinaliza que iniciativas bem simples e aplicadas de forma enérgica no colégio têm impacto decisivo. Alguns bons e isolados exemplos surgem no Brasil. “Quebramos o silêncio ao trazer os pais à escola para falar sobre o assunto e reunir os agressores, as vítimas e os alunos que testemunham a violência para produzir, juntos, uma cartilha anti-bullying”, conta Tânia Maselli, coordenadora da escola municipal carioca Fernando Tude de Souza, referência na área. A mudança de cultura é o primeiro passo. O segundo pressupõe punição aos agressores por parte da escola. “Não existe combate efetivo ao bullying sem regras nem fiscalização”, conclui a especialista americana Dorothy Espelage.

Falta ao Brasil uma lei federal destinada a castigar os autores desse crime. Quando chegam à Justiça, os casos são enquadrados em infrações previstas no Código Penal, como injúria, difamação e lesão corporal. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) pode ser acionado, mas, na prática, é pouco eficaz. “Os juízes das varas da Infância e Juventude muitas vezes não dão prioridade aos casos de bullying por julgá-los de menor gravidade”, diz o advogado Marcel Leonardi, professor da Fundação Getulio Vargas. O desfecho da história da estudante Julia Affonso, 15 anos, é exceção. Vítima de bullying oito anos atrás, ela conseguiu na Justiça do Rio que a escola particular na qual estudava lhe pagasse indenização no valor de 35000 reais. “Nada vai fazer apagar da minha cabeça lembranças tão dolorosas”, diz ela.

Criador no início da década de 70 do termo bullying (que se origina do inglês bully, “valentão”), o sueco Dan Olweus constatou uma relação direta entre as agressões e o aumento de transtornos psicológicos nos estudantes – mas não necessariamente na produção de assassinos. “No caso de Wellington, provavelmente as humilhações funcionaram como gatilho de um gravíssimo distúrbio psiquiátrico”, diz Gustavo Teixeira, psiquiatra e autor do recém-lançado Manual Antibullying. Sem o bullying, a brasa assassina enterrada na mente transtornada de Wellington teria encontrado outros gatilhos? Certamente, sim. Mas coibir as agressões aos mais frágeis na idade mais vulnerável deveria já ser um objetivo de toda boa escola mesmo que o massacre de Realengo nunca tivesse ocorrido.

Indenização pela escola oito anos depois

Quase uma década após sofrer agressões que culminaram numa grave ferida na cabeça, provocada por um lápis afiado, Julia Affonso acaba de se tornar um caso raro no país. Há duas semanas, a Justiça do Rio de Janeiro condenou o colégio católico onde ela cursou as primeiras séries do ensino fundamental a lhe pagar uma indenização no valor de 35000 reais. A razão: negligência no enfrentamento do bullying que ela sofreu durante um ano, sem trégua. Sua mãe, a relações-públicas Ellen Alvarenga, implorava às freiras que tomassem providências, mas ouvia: “É tudo brincadeira de criança”. Julia tinha 7 anos quando isso aconteceu e sofria horrores. Vivia deprimida, isolada do mundo e precisou de ajuda psicológica. Hoje, aos 15 anos, cheia de amigos e feliz na escola, ela diz: “Sempre que vejo alguém praticando bullying, defendo a vítima. Só quem passou por essa situação sabe quanto é difícil conviver com memórias tão dolorosas”.

O tormento de ir para o colégio

Quando L.B., 15 anos, entrou na adolescência, uma deformação em sua face direita, fruto de uma doença congênita, começou a motivar piadas por parte dos colegas, especialmente dos meninos. Elas foram se tornando mais cruéis. “Me chamam de feia, boca torta e até perguntam se eu estou grávida na bochecha”, conta a menina, que sofre sem nenhum amparo do colégio estadual onde estuda desde janeiro, em São Paulo. “Aproveitam para me humilhar quando os professores não estão olhando”, diz L.B., que tenta esconder seu rosto com o cabelo. Tímida e sem amigos, ela acredita que pode superar o problema submetendo-se a uma série de cirurgias plásticas, já programadas. As cicatrizes das humilhações que sofre todos os dias, no entanto, ficarão para sempre em sua memória.

“Nunca vou ficar 100% curado”

Por quase uma década, o administrador de empresas C.J., 28 anos, tinha medo até de atender o telefone de casa. Os trotes dos colegas de classe eram um tormento. Ele se tornou alvo constante de humilhações e ameaças simplesmente porque tirava notas altas e os estudantes o achavam “bonzinho demais”. De uma cidade no litoral paulista, mudou de colégio duas vezes, mas sua fama migrava com ele. Ao esbarrar com alguém que sabia de seu histórico, o roteiro do bullying se repetia. Várias vezes, ele fingia estar doente para não ir à escola. Chegou até a desistir de participar da viagem de formatura do colégio por medo. “Disseram que, se eu fosse, a experiência seria um inferno”, rememora. Apesar de hoje levar uma vida normal, o administrador ainda guarda as sequelas. “Quando vejo um grupo rindo do meu lado, acho que é comigo”, ele diz.

O pesadelo começou na internet

Há mais de um ano, o gaúcho M.T., 14 anos, tornou-se alvo de ofensas anônimas em redes sociais. Dois meses depois, as humilhações deixaram o ambiente virtual. Numa festa, o garoto apanhou de um colega mais velho diante de toda a turma. O próprio agressor identificou-se como o autor dos xingamentos on-line. “Passei a ser perseguido por todo o grupo dele. Até os meus amigos estão com medo de andar comigo”, conta. Procurada pelos pais, a direção do colégio particular onde ele estuda, em Porto Alegre, só deu atenção ao caso quando soube que estava prestes a parar na polícia. A única providência foi reunir agressor e vítima para que selassem as pazes. M.T. continua sendo agredido, e a escola limitou-se a sugerir que os pais contratassem um segurança particular.

Terapia para superar o trauma

A infância do designer Guilherme Ghilardi, 25 anos, foi marcada pela angústia de chegar à escola e ser vítima de todo tipo de brincadeira de mau gosto. Gorducho, ele era chamado de “mamute”. Na sala de aula, entortavam o ferro de sua cadeira para que ela quebrasse quando ele se sentasse, como se seu peso fosse o causador do estrago. Lançavam restos de comida, cadernos e mochilas nele. “Era a classe inteira contra mim. Contava os minutos para chegar em casa e ficar longe daquele lugar”, diz Guilherme, revolvendo as memórias. “Não há nada mais solitário que o bullying”. Um dia, o designer, que na época não falava aos pais nem à escola sobre o que se passava, decidiu fazer dieta e um intercâmbio na Inglaterra. “Fiz terapia e tive forças para me refazer, mas preferiria não ter de guardar esse tipo de lembrança.”

“Meu filho apanhava calado”

Depois que Cristiane Almeida, 33 anos, testemunhou o sofrimento do filho Nathan por quase três anos, ela decidiu fundar uma ONG em São Paulo para ajudar os pais a lidar com o bullying. Entre os 9 e os 11 anos de idade, o menino, hoje com 13, não se recorda de um dia em que tenha ido para a escola sem suar frio, sentir náuseas e ser tomado pelo pavor. Tímido, franzino, sempre à margem do grupo, ele havia se tornado alvo de agressões dos colegas. “Apanhava calado, com vergonha. Tinha medo de falar e sofrer mais”, conta Nathan, que preferiu não aparecer na foto. A turma pedia que ficasse de quatro e o fazia imitar um cavalo. Quanto mais suplicava para que parassem, mais ele ouvia “frouxo”, “chorão”. Certa vez, recebeu uma surra que provocou diversos ferimentos pelo corpo. A mãe buscou ajuda no colégio – em vão. Ela percorreu inúmeras instâncias administrativas até conseguir afastar a diretora. Hoje, Nathan está em outra escola e arranjou amigos. “Luto para que ninguém tenha um filho que sofra o mesmo que o meu”, diz.

O retrato da mente de um monstro

Um conjunto de imagens deixadas pelo autor do massacre de Realengo mostra como o bullying o traumatizou

O conjunto de cartas e imagens encontrado na casa onde vivia Wellington Menezes de Oliveira, autor do bárbaro massacre que ceifou a vida de doze crianças de uma escola em Realengo, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, suscitava uma questão central: com citações ao Corão, aos ataques do World Trade Center e a enigmáticos “irmãos”, teria ele agido como braço de alguma organização extremista islâmica ou mesmo de um bando terrorista? Embora a divisão antiterror da Polícia Federal não visse nenhum elo de Wellington com tais grupos, cinco vídeos achados também em sua casa, na semana passada, trataram de elucidar de vez a questão. Em mais uma faceta revelada de sua mente doentia, o matador deixa claro que os irmãos a quem se referia eram rodos vítimas de bullying, como ele. Na véspera do crime, já com a longa barba que deixara crescer raspada, para não chamar atenção quando chegasse à escola, ele diz: “Eu fui fraco, fui medroso, mas me tomei um combatente, uma pessoa forte, corajosa, que tem como objetivo a defesa dos irmãos fracos que ainda se encontram incapazes de se defender”. Também parabeniza o “irmão” Casey Heynes, um australiano de 15 anos que reagiu violentamente contra um colega que o submetia a constantes humilhações.

O tom raivoso, um traço comum a de jovens criminosos que atacam escolas, está presente o tempo todo. Em uma das gravações, Wellington menciona novamente o bullying: “Se tivessem descruzado os braços antes e feito algo sério no combate a esse tipo de prática, provavelmente eu estaria vivo; todos os que matei estariam vivos”. Com base nesses vídeos e nas outras evidências reunidas, a policia está certa de que se tratava de alguém que agia sozinho e dava claras manifestações de esquizofrenia, doença herdada da mãe biológica. “Ele criava personagens e tentava usurpar-se de personalidades com as quais tomava contato pela internet”, diz a VEJA o delegado Sérgio Henriques, chefe do Departamento de Policia Técnico-Científica, encarregado de recuperar os dados no computador de Wellington.

A polícia também conseguiu prender três pessoas que venderam ilegalmente a munição e os dois revólveres usados no massacre. Comprovou-se que Wellington planejara tudo nos mínimos detalhes e com antecedência. Sete meses atrás, comprou uma das armas de um segurança que havia sido seu colega quando trabalhava numa fábrica de embutidos. A outra foi adquirida, em janeiro, de um mecânico. Por tudo, pagou 1 500 reais, quantia que estava economizando havia mais de um ano. Guardava parte do dinheiro dentro de uma garrafa de refrigerante, que mantinha escondida em seu quarto. Wellington passou a fotografar a si mesmo exibindo os revólveres como um trunfo – como mostram as imagens acima. Em uma das fotos, ele aparece trajando a camisa verde e a calça social preta que usou no dia em que cometeu os assassinatos na escola de Realengo. Diz a psicóloga americana Dorothy Espelage: “Ele repete o padrão de outros que cometeram crime semelhante. Excluídos ao longo da vida, eles buscam a fama no seu gesto final”.