Redes sociais tornam-se símbolo da falta de privacidade

“Quer você goste ou não, a sua reputação no Google ou em qualquer navegador de busca online, hoje, é a sua reputação”, diz o advogado Marcel Leonardi, Mestre e Doutor em Direito Civil pela USP e especialista em Internet e direito digital.

PUC Campinas

Autora: Thais Fabrile
Fonte: Jornalismo PUC Campinas

O uso incorreto da ferramenta somado com a ingenuidade dos usuários preocupam especialistas

É cada vez mais crescente o número de usuários que aderem as redes sociais. Por meio de recados, depoimentos, comunidades e tweets, é possível saber o que as pessoas fazem, pensam ou escondem. Os usuários, sejam por vaidade, sejam por ingenuidade publicam o destino de suas férias, o programa para o final de semana, postam fotos, vídeos e acabam detalhando sua vida para quem quiser ver, incluindo criminosos, fatos esses, que vem despertando a atenção de especialistas que estudam as questões relacionadas a privacidade no mundo virtual.

Uma preocupação recente está relacionada a aplicativos utilizados nos celulares que transmitem a localização exata de um usuário através de coordenadas GPS, que é então vinculada em sites como Twitter, Facebook e Foursquare. Segundo o designer de produto do Twiter, Vitor Lourenço, com o fornecimento dos dados pessoais em sites de relacionamentos, todos perdem a privacidade sem o próprio conhecimento. “Cada vez mais fornecemos os nossos dados e não percebemos os riscos disso. Todo mundo tem, e-mail, Twitter, Orkut, Flickr, MSN. Nossos dados estão disponíveis para estas empresas quando fazemos o cadastro”.

Segundo o assessor de comunicação do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br), Everton Rodrigues, de acordo com a legislação atual, não existe diferenciação entre os meios utilizados para cometer um crime. “Os crimes praticados pela Internet estão sujeitos à mesma legislação dos crimes que utilizam quaisquer outros meios. Note que, apesar de utilizar um meio “virtual”, o crime praticado e o prejuízo é completamente real. Isso vale para sequestros, injúria e os demais, incluindo os de direitos autorais.Assim, a legislação atual já contempla os crimes existentes”afirma.

O NIC.br, em sua cartilha sobre conceitos de segurança, afirma que “um site de redes de relacionamento normalmente permite que o usuário cadastre informações pessoais (como nome, endereços residencial e comercial, telefones, endereços de e-mail, data de nascimento, etc), além de outros dados que irão compor o seu perfil. Se o usuário não limitar o acesso aos seus dados para apenas aqueles de interesse, todas as suas informações poderão ser visualizadas por qualquer um que utilize este site. Além disso, é recomendável que o usuário evite fornecer muita informação a seu respeito, pois nenhum site está isento do risco de ser invadido e de ter suas informações furtadas por um invasor”.

Para o Mestre e Doutor em direito civil, especialista em direito e internet, Marcel Leonardi, o maior problema da era digital é cultural e não jurídico, a necessidade de transmitir a rotina para todos e em tempo real. “As pessoas abrem mão da própria privacidade para compartilharem o que estão comendo ou fazendo. Um ritual um tanto quanto narcisista, olhem para mim, veja o que eu estou fazendo”. Marcel afirma também que o problema maior dessa super exposição é quando uma pessoa divulga  informações de outras pessoas, sem o consentimento, sendo esta a causa de grande parte dos processos jurídicos.

O especialista em direito e internet ainda enfatiza sua opinião sobre o futuro: “Ou a vida vai ficar muito chata e todo mundo vai virar político e passar a ter uma vida pública, ou todo mundo terá algo bem ruim que ninguém mais irá se importar com a vida de ninguém”, e deixa um recado para os internautas: “Quer você goste ou não, a sua reputação no Google ou em qualquer navegador de busca online, hoje, é a sua reputação”.

Criado como brincadeira, mas com o objetivo de alertar quanto aos perigos que podem estar associados ao compartilhamento de informações online, o web site PleaseRobMe.com (“por favor me roube”), ressalta a falta de preocupação ao se compartilhar informações. Muitas vezes, pessoas indicam sua localização atual, tornando possível que golpistas rastreiem e hajam de má fé. O site junta estas informações e aponta quando as pessoas estão criando oportunidades de roubo. “Quando você diz ao mundo onde está, também está dizendo aos ladrões que você não está em casa” afirma o design do Twitter.

O web designer de 22 anos, Lucas Bittar, conta que  utiliza a ferramenta do Foursquare, que publica nas redes sociais suas real localização para compartilhar com seus amigos seus hábitos. “Utilizo a ferramenta para avisar meus amigos da minha localização e como meus amigos recebem uma notificação do meu chek-in muitas vezes acabo encontrando amigos que estavam no mesmo lugar”.

É recomendado que os usuários tomem ações cuidadosas a respeito de configurações relativamente obscuras, pouco discutidas, profundamente escondidas e frequentemente confusas em serviços como Facebook, Gmail, Foursquare, Orkut e Twitter e acima de tudo, em seu próprio aparelho celular. Em meio ao caos, deve-se abdicar completamente da internet em nome da total segurança? Você deixaria de circular nas ruas por causa dos assaltos? A melhor maneira, nos dois casos, é proteger-se.