Pelados 2.0

“No calor da relação, o homem ou a mulher concorda em se deixar filmar. E, por uma tara, por uma briga, esse conteúdo pode parar na internet. Quando a vítima deseja remover conteúdo da rede, deve procurar um advogado especializado”, afirma o professor da FGV-SP e advogado Marcel Leonardi.

Autora: Daniela Arrais
Fonte: Folha de São Paulo

Fotos e vídeos caseiros de momentos íntimos caem na internet e surpreendem vítimas desavisadas

Tudo era uma brincadeira ou um registro de momentos que diziam respeito, apenas, a duas pessoas. De repente, você acessa a internet, checa seu e-mail ou perfil em redes sociais e se depara com uma surpresa: fotos ou vídeos monstrando a sua intimidade estão ao alcance de um clique.

Quem já fotografou ou filmou a si mesmo em poses ou movimentos sensuais e sexuais está sujeito a virar atração na internet. Com a disseminação da tecnologia, fica cada vez mais comum encontrar na rede imagens de anônimos em situações que ultrapassam as quatro paredes -nem sempre por vontade própria.

Uma leva de celebridades, como Paris Hilton, Vanessa Hudgens e Daniella Cicarelli, já teve fotos e vídeos divulgados na internet sem autorização. Ganharam os holofotes, é claro, mas também tiveram que recorrer à Justiça para retirar o conteúdo do ar -quase sempre, sem sucesso.

O fenômeno é chamado de sexting nos Estados Unidos. O neologismo diz respeito à junção de sex (sexo) e texting (troca de mensagens por celular) e já é assunto de pesquisa -uma publicada no fim de 2008 mostra que um em cada cinco jovens norte-americanos com idades entre 13 e 19 anos já enviou pelo celular algum tipo de foto ou vídeo de si mesmo nu ou seminu. Entre os jovens adultos, de 20 a 26 anos, o fenômeno é ainda maior: um terço declarou já ter feito sexting.

Nas mãos de pessoas erradas, esse tipo de conteúdo pode virar um grande problema. Imagine só se um ex-namorado divulga na internet fotos e vídeos do antigo parceiro para se vingar ou manchar sua reputação? A prática existe e já ganhou denominação: “revenge porn” (pornografia da vingança, em tradução livre).

Nesta edição, conheça vítimas desse tipo de prática, veja como crianças e adolescentes se comportam na internet, relembre casos envolvendo celebridades, saiba como se prevenir e confira dicas de advogados sobre como proceder.

Vídeo erótico de vereadora cai na rede

A vereadora Andrea Puríssimo, de Santo Anastácio (596 km de SP), estava em uma viagem quando recebeu uma ligação da família avisando que um vídeo seu, protagonizando cenas de sexo com um parceiro casual, havia vazado para celulares e para a internet.

“Não tenho ideia de como o vídeo foi parar na internet”, disse a vereadora à Folha. Apesar do burburinho que as cenas causaram na cidade do interior, Andrea afirma que não sofreu maiores danos. “Foi mais um movimento psíquico, porque tenho uma família, uma filha menor de idade. Mas não fui prejudicada no trabalho.”

O suplente de Andrea, no entanto, pediu a criação de uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito), que não foi adiante. Hoje, três advogados cuidam do caso. “Espero que o episódio sirva de alerta para outras pessoas, para que elas pensem nas consequências de expor alguém. Exposição da vida íntima é algo que ninguém deve fazer”, afirma Andrea.

Serviço on-line

A publicitária Priscila Sobral, 33, estranhou quando começou a receber ligações seguidas de homens que iniciavam a conversa falando de fantasias e posições sexuais.

Sem entender nada, ela questionava: “Do que você está falando?”. Eles retrucavam: “Você não é a Priscila, do site tal?”. Depois de alguns telefonemas, ela resolveu digitar o endereço. E teve uma surpresa: uma foto de outra pessoa, acompanhada de seu nome verdadeiro e de seu telefone e e-mail do trabalho, estava publicada junto a textos picantes, que ofereciam serviços de garota de programa.

“Você está trabalhando, e alguém liga em busca de sexo. É muito constrangedor. Tive que me expor para a família, para os colegas de trabalho”, disse em entrevista à Folha.

Cansada das agressões on-line, Priscila foi procurar um advogado especializado em crimes eletrônicos, que conseguiu um mandado de busca e apreensão do equipamento de onde eram feitas as ameaças.

Agora, ela acompanha o processo judicial. “Acho que quem fez isso não esperava esse desfecho. Não vai dar cadeia, mas a pessoa tem que pagar pelo que fez, aprender que não se pode brincar assim, mexer com a dignidade, com a moral de alguém. Mas o que eu passei, ninguém paga”, diz.

Da internet para o cinema

Quando era adolescente, ainda nos tempos do VHS, o cineasta Daniel Aragão, 28, se viu em maus lençóis ao ter um vídeo de sexo protagonizado com a então namorada espalhado no boca a boca entre seus amigos. Ele aproveitou a experiência para fazer, anos depois, um filme sobre o assunto.

O curta-metragem “Não Me Deixe em Casa” aborda “como as pessoas se isolam do mundo quando estão amando”, diz.

Com estreia prevista para agosto, o filme fala sobre as consequências da exposição e, também, sobre como é natural para os adolescentes lidarem com a tecnologia. (DA)

Sexting atrai jovens internautas dos EUA

FLERTE TECNOLÓGICO >> Pesquisa aponta que um em cada cinco adolescentes já mandou pela rede fotos de conteúdo sexual

Um grande número de adolescentes e jovens adultos já enviou ou postou na internet fotos de si mesmos nus ou seminus. Nos EUA, um em cada cinco adolescentes afirma já ter praticado sexting, segundo pesquisa realizada no ano passado pela National Campaign to Prevent Teen and Unplanned Pregnancy (campanha nacional para prevenção de casos de gravidez entre adolescentes e gravidez indesejada).

O estudou trabalhou sobre 1.280 entrevistas com adolescentes (13 a 19 anos) e jovens adultos (20 a 26 anos).

Meninas lideram

A pesquisa aponta que 71% das adolescentes e 67% dos adolescentes enviaram ou postaram conteúdo sexual para seus namorados -21% das meninas e 39% dos meninos disseram que enviaram conteúdo para alguém que eles queriam namorar ou sair junto.

Dos entrevistados, 15% afirmaram que enviaram imagens de si mesmos nus ou seminus para pessoas que eles só conheciam por meio da internet.

A pesquisa demonstrou que todos sabem que material desse tipo é potencialmente perigoso: 75% dos adolescentes e 71% dos jovens adultos disseram que enviar conteúdo com sugestão sexual “pode ter sérias consequências negativas”.

Eles sabem, também, que muitas vezes suas imagens são compartilhadas com pessoas que eles nem conhecem.

“Acho que uma das principais preocupações em relação aos jovens é que eles compartilham informações em demasiado. Colocam fotos em redes sociais, dizem para onde vão. Isso é um perigo”, afirma Stephen Balkam, presidente do Fosi (Family Online Safety Institute; instituto para segurança on-line da família, em tradução livre).

Os motivos para o sexting são variados: a maioria diz que é uma atividade divertida e de flerte. Entre as garotas, 51% dizem que a pressão dos garotos é a razão pela qual elas enviam as imagens. Enviar um presente sexy para o namorado também é um dos motivos. Os adolescentes dizem ainda que, em alguns casos, enviam conteúdo provocante como resposta a um que já receberam.

Para 40% das meninas, enviar essas imagens ou mensagens é uma piada; 34% já fizeram isso para se sentir sexies.

Entre os motivos de preocupação dos adolescentes, estão se arrepender depois, manchar a reputação, prejudicar as chances ou a relação com o outro e, em quarto lugar, desapontar a família.

Dicas para os pais

A pesquisa fornece dicas para os pais, como conversar abertamente com seus filhos sobre o que eles fazem na rede e no celular, saber com quem eles se comunicam e impor limites para tempo de uso das ferramentas. E recomenda ficar de olho no que eles postam em perfis.

“Converse com seu filho sobre o que você considera um comportamento “eletrônico” apropriado. Assim como certas roupas saem do limite ou certos modos de falar não são aceitos em casa, deixe claro o que é e o que não é permitido on-line”, diz o texto. (DANIELA ARRAIS)

Remover conteúdo indesejado é trabalhoso, dizem advogados

Conteúdo postado na internet é difícil de ser apagado. Mesmo que você aperte o botão Delete, alguém pode aproveitar minutos de descuido para salvar uma foto, copiar um vídeo ou reproduzir um post de conteúdo sexual.

E remover essas informações dá um grande trabalho.

“Tudo que envolver intimidade deve ter uma precaução especial, deve contar bom senso”, diz o advogado Renato Opice Blum. “Na internet, a prova não fica mais restrita a quatro paredes, vai para o mundo.”

“Prevenção é não se deixar ser filmado ou fotografado”, afirma Marcel Leonardi, advogado e professor da FGV (Fundação Getúlio Vargas). “Às vezes, no calor da relação, o homem ou a mulher concorda em se deixar filmar. E, por uma tara, por uma briga, esse conteúdo pode parar na internet.”

Segundo ele, uma forma de ter mais cuidado é colocar tarjas eletrônicas sob o rosto ou fazer alterações na voz. “Se a pessoa tem cautela, minimiza um pouco o problema. Se cair na rede, ela morre de vergonha, mas pelo menos terceiros não vão conseguir identificá-la.”

As medidas que a vítima deve tomar após ver seu conteúdo exposto on-line variam de caso a caso. “Quando a vítima deseja remover conteúdo da rede, deve procurar um advogado especializado para que ele ingresse com ação judicial contra o provedor que mantém o conteúdo”, afirma Leonardi.

O provedor tomará providências como remover o material dos serviços e informar os dados de que dispuser a respeito da publicação, para que se tente rastrear o usuário responsável, diz o advogado.

Na ação judicial, a vítima pode argumentar que sua imagem foi violada e que ela foi colocada em situação vexatória.

Quando o conteúdo vai parar em um site P2P, é mais difícil tomar as providências. “O arquivo não fica em um servidor central, mas disseminado em vários computadores. Uma das medidas é identificar o responsável pela primeira disseminação”, diz Leonardi.

Campanha visa combater o sexting

BELINDA GOLDSMITH

DA REUTERS LIFE!

O governador de Nova Gales do Sul, na Austrália, lançou uma campanha educativa a fim de combater a prática, cada vez mais frequente, de sexting, afirmando que essas imagens ou mensagens de texto com conteúdo sexualmente explícito podem ser postadas na internet ou encaminhadas para outras pessoas, podendo resultar em práticas de assédio ou até de crime sexual.

“Os adolescentes normalmente não pensam sobre as consequências de seus atos. O que eles imaginam ser uma brincadeira inocente ou um flerte inofensivo pode prejudicá-los seriamente se cair em mãos erradas”, disse Linda Burney, ministra de Serviços Comunitários da Nova Gales do Sul.

O governo produziu um material informativo para escolas, pais e adolescentes a fim de informá-los sobre as possíveis consequências do sexting. Burney também está pedindo aos pais para conversarem com seus filhos sobre o tema e para checarem sites de redes de relacionamentos em busca de imagens inapropriadas.

Tradução de FABIANO FLEURY DE SOUZA CAMPOS

Navegação precisa de limites

Você colocaria fotos de momentos variados da sua vida no mural da escola, para todo mundo ver, sem refletir bastante sobre o assunto?

É usando essa questão que Rodrigo Nejim, diretor de prevenção da ONG Safernet, alerta para os perigos de disponibilizar fragmentos da vida na internet.

Pesquisa realizada pela organização não governamental aponta que 53% das crianças e dos adolescentes afirmaram já ter encontrado conteúdo impróprio na rede. Ao mesmo tempo, 87% afirmam que não têm limites para navegar -38% dizem ter medo de encontrar um adulto mal intencionado enquanto navegam e 28% dizem ter encontrado pessoalmente alguém que conheceram na rede.

“São sinais de que crianças e adolescentes ainda não têm dimensão de que a internet é um espaço público. As fotos que a gente publica não são vistas apenas pelos amigos e pela família. Qualquer um pode vê-las”, diz.

A pesquisa aponta, também, que 21% dos entrevistados nunca se sentem seguros na internet – 38% foram vítimas de ciberbullying; 29% já tiveram seus dados/perfil roubados; e 26% nunca buscaram dicas de proteção.

“As pessoas têm uma ideia de que a internet é uma terra sem lei, de anonimato completo, de impunidade. E não é bem assim”, afirma Nejim.

Segundo ele, pais e filhos precisam conversar sobre a forma como usam a internet. “Da mesma forma que as crianças não podem aceitar balas de estranhos, elas não devem aceitar e-mails estranhos, pedidos de amizade de estranhos no Orkut, no MSN.”

Não adianta, no entanto, proibir o uso da internet nem vigiar o comportamento dos filhos. “É preciso dialogar, orientar e fazer um acompanhamento”, diz. (DA)

Prática reprisa velha batalha entre gerações, diz psicoterapeuta dos EUA

BRUNO ROMANI

COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, EM BERKELEY

O atual modismo do sexting -ato de compartilhar, com auxílio tecnológico, imagens do próprio corpo com pouca roupa- reprisa a velha batalha entre gerações, na qual os mais novos aprendem como a sua sexualidade assusta os mais velhos. Pelo menos, essa é a avaliação de Marty Klein, psicoterapeuta especialista em educação sexual, que atua em Palo Alto, Califórnia.

Com opinião semelhante, Richard Chalfen, professor de antropologia e membro do Centro para Mídia e Saúde Infantil da Escola de Medicina de Harvard, afirma que alguns jovens estão forçando a barra ao capturar imagens do corpo, pois sabem que o fenômeno é um assunto do momento.

Nos EUA, desde o suicídio da jovem Jesse Logan, há um ano, a mídia vem seguindo de perto o tema. O ex-namorado de Logan, depois do final do relacionamento, divulgou fotos dela nua. Isso teria colocado a garota em depressão profunda.

Celebridades

A mania de autoexposição ilimitada (ou quase) ganha espaço também no mundo das celebridades, que aderem ao pelados 2.0.

Nos EUA, ficaram famosos os casos de Vanessa Hudgens, atriz de “High School Musical”, e Adrienne Bailon, integrante do Cheetah Girls, grupo musical jovem da Disney. Ano passado, as duas tiraram fotos seminuas para seus namorados que acabaram na rede após terem seus computadores supostamente roubados.

Para Chalfen, o modismo não é surpresa, dado que os jovens têm “muita dificuldade em prever as consequências dos seus atos”. Ou seja, eles não imaginam que o parceiro de hoje possa ser o vilão de amanhã.

Historicamente, pais e educadores apontam seu dedo acusador para a mídia como uma das responsáveis por novos fenômenos ligados à sexualidade dos jovens. Hoje em dia, porém, o grupo não é apenas consumidor de tabloides, “reality shows” ou qualquer coisa que capture a privacidade alheia.

O problema -ou a novidade- é que celulares, câmeras digitais e internet permitem que as pessoas sejam os seus próprios paparazzi -fotografando a si mesmas e a outros em situações privadas e colocando as imagens na rede.

Chalfen explica que as gerações mais novas são “nativos digitais”. Ou seja, os jovens dos dias atuais cresceram acostumados a terem suas vidas mediadas pela tecnologia o tempo todo. Ele diz que “celulares com câmeras não estão apenas inseridos na vida do jovem, mas são parte de sua identidade”. O professor, porém, lembra que apenas uma minoria pratica sexting.

O que não significa que não haja problemas, como o drama de Logan. Para que casos semelhantes não se repitam, a dica de Marty Klein é o “use com responsabilidade”. Klein diz que os pais devem ensinar os filhos a terem sentimentos sexuais e pensarem claramente ao mesmo tempo, tendo ciência dos seus atos.