Em sintonia com as transformações na sociedade, a área jurídica abre novos campos de atuação

“Leonardi faz parte dessa minoria de advogados inovadores e conquistou postos na área acadêmica graças ao investimento feito em formação. Atualmente é professor da Fundação Getúlio Vargas (GVLaw), da Escola Superior de Advocacia da OAB/SP e do Centro de Extensão Universitária (CEU-SP). Segundo ele, o Direito digital é uma área que vem crescendo não apenas em volume de processos, mas também na qualidade da doutrina, com cursos, publicações, artigos e encaminhamentos específicos.”

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Autora: Heloisa Pereira
Fonte: Canal RH

O diploma da Faculdade de Direito São Francisco, da USP, recebido dez anos atrás, trazia para o jovem paulista Marcel Leonardi, então com 22 anos, perspectivas que se traduziam num bom emprego dentro de uma área tradicional da advocacia, seguindo os passos de seu pai, Edson Leonardi, também advogado. No entanto, o mercado de trabalho o surpreendeu. As oportunidades surgiram de um campo até então improvável para um advogado recém-formado e pouco familiarizado com tramas policiais: o Direito no ambiente virtual.

As novas tecnologias abrem mais uma oportunidade para os profissionais da área jurídica: o chamado Direito digital. Quem estiver atento às invenções tecnológicas, sabe que os delitos já não são como antigamente. Hoje, crimes virtuais, e-mails espalhando informações confidenciais na internet, calúnias escritas por anônimos em webpages não são enredos policiais de ficção high-tech. Ao contrário, são ações bem concretas e precisam de leis para coibi-las.

Interessado desde cedo pela tecnologia, Leonardi voltou à USP para pesquisar a responsabilidade civil dos provedores de internet, tema de seu mestrado. A dissertação virou livro e abriu portas para a atuação na área do Direito digital. Titulado mestre em 2004, ele continua investindo em formação acadêmica, com um curso de doutorado em andamento.

O perfil profissional de Leonardi é objeto de análise de uma pesquisa feita por Luciana Gross Cunha, da Faculdade Getúlio Vargas (GVLaw). Ouvindo jovens profissionais, na maioria entre 23 e 30 anos, Luciana constatou que a contínua atualização educacional é vista como o caminho mais valorizado pela elite das sociedades de advocacia, e o investimento na formação é um dos fatores que mais influencia o sucesso, de acordo com 98% dos entrevistados. Grande parte deles (70,1%) atua e pretende se qualificar nas áreas “tradicionais” do Direito (como trabalhista, família e penal), 26,5%, nas relacionadas a negócios, e 3,4% dos advogados consultados se dedicam a novas áreas.

Leonardi faz parte dessa minoria de advogados inovadores e conquistou postos na área acadêmica graças ao investimento feito em formação. Atualmente é professor da Fundação Getúlio Vargas (GVLaw), da Escola Superior de Advocacia da OAB/SP e do Centro de Extensão Universitária (CEU-SP). Segundo ele, o Direito digital é uma área que vem crescendo não apenas em volume de processos, mas também na qualidade da doutrina, com cursos, publicações, artigos e encaminhamentos específicos. O desafio é grande. É preciso estar atento às novidades teóricas e aos rumos que a Justiça vem tomando nos processos, e manter contato com técnicos em informática para estar por dentro dos novos mecanismos da web.

A pesquisa de Luciana investigou também o que leva um profissional a buscar um curso de pós-graduação. A ascensão na carreira é o objetivo de 60,5% dos entrevistados, 55,6% deles disseram que a possibilidade de dedicação à área acadêmica é muito importante e 52,5% acham que um curso de pós-graduação pode melhorar o currículo. Apenas 7,4% dos respondentes vêem na pós-graduação uma oportunidade de mudar de área de atuação, enquanto 5,9% dos entrevistados acreditam que o programa de pós irá ajudá-los em seu aperfeiçoamento profissional.

Campo empresarial

Outro aspecto avaliado pela pesquisa é o de desenvolvimento de determinadas áreas do Direito. Com base nos depoimentos de diversos profissionais, Luciana constata que a tendência atual é o crescimento da área de negócios. Serviços mais especializados, como o Direito societário – que trabalha, por exemplo, com partilha de empresas e desmantelamento de sociedades – se valorizaram muito nos últimos anos.

Marcella Trindade Curti é advogada do Bicbanco S/A em São Paulo. Na área empresarial há cerca de dez anos, acredita que o espaço para os advogados se amplia, principalmente dentro das empresas. Ela vê esse movimento como resultado de uma regressão das terceirizações dos anos anteriores. “Isso não significa que a terceirização não é viável, mas que ela foi demasiadamente ampliada, e, em alguns casos, não teve os resultados esperados.” O momento atual, diz ela, é de retomada e de valorização dos profissionais internos, dos parceiros.

Especializada na área de processo civil, Marcella atua principalmente com Direito contencioso. Ela ressalta que o investimento na formação profissional é uma exigência do mercado e aconselha: “O profissional não deve se fixar apenas no Direito, na área jurídica; precisa ter uma visão global do setor em que vai atuar.” No Direito empresarial, acrescenta, é importante entender de finanças, mercado, comércio.

O Direito de negócios, apontou a pesquisa de Luciana Gross Cunha, tende a crescer impulsionado pela mão-de-obra masculina, embora o número de mulheres atuantes não seja pequeno. “Está ocorrendo uma migração dos advogados homens, que estão saindo das áreas tradicionais e indo para os ramos envolvendo negócios. As mulheres estão entrando para substituí-los nos ramos mais tradicionais”, diz Luciana. A professora explica: grande parte das mulheres torna-se advogada associada em escritórios de porte médio, o que lhes permite maior flexibilidade para conciliar vida pessoal, maternidade e carreira profissional. As maiores bancas, que geralmente envolvem Direito de negócios, exigem grande comprometimento, disponibilidade de tempo e eventos indiretamente ligados ao universo empresarial, como happy hours e encontros com clientes.

Nesse ponto, os homens levam vantagem, pois, em tese, podem dedicar mais tempo à profissão.

A busca por flexibilidade de horários influenciou a vida de Ana Carolina da Costa, advogada em Direito de família. Ela escolheu abrir seu próprio escritório para poder passar mais tempo com os dois filhos. Todos os dias, eles tomam café da manhã juntos. Também é ela quem os leva para a escola. “Poucas áreas do Direito permitem essa liberdade, mas, para quem trabalha com contratos, direito civil ou de família, atendendo clientes, a possibilidade é mais presente”, afirma a advogada. A receita, entretanto, funciona só para quem já formou uma boa base profissional.

Em início de carreira

Um advogado em começo de carreira recebe em torno de R$ 1 mil a R$ 2 mil. E começar a trabalhar como advogado exige algum esforço: além de se graduar como bacharel em Direito, é preciso prestar o exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). A prova se divide em duas fases. Neste ano, a primeira fase aconteceu em 27 de janeiro, com 24.827 inscritos, dos quais 39,80% foram aprovados para a segunda fase (marcada para março). O último exame do ano anterior (2007) teve 2.848 aprovados finais.

Há também cargos concursados. O posto de procurador Geral da República é o cargo máximo da carreira, com salário em torno de R$ 22 mil. Nesse meio, estão os defensores públicos (aproximadamente R$ 3 mil) e promotores (entre R$ 8 mil e R$ 14 mil). Os procuradores federais e estaduais também vêm em seguida, com vencimentos entre R$ 8 e 14 mil. Esses todos precisam ter OAB. Já os delegados, por exemplo, podem fazer o concurso apenas com o curso de bacharel, e ganham bem: de R$ 10 mil a mais. Mas para tentar a maioria dos cargos em concurso, é preciso três anos de prática jurídica, seja profissionalmente ou em cursos de pós-graduação.